top of page
Buscar

Não sou internacionalista só no diploma - sou internacionalista com meu corpo inteiro


Nesse momento me encontro em um bar, na capital da Colômbia, de frente pros Andes, no frio das alturas, rodeada pela calorosa cultura que não tem fronteiras: a cultura latino-americana.


Eu não nasci latino-americana. Arrisco a dizer que não nasci nem muito brasileira. Nasci gaúcha, sem lugar a dúvidas. Minha festa de São João era a quermesse da prenda e do gaúcho. Anita e Giuseppe Garibaldi foram meus heróis desde criança. Até hoje me lembro com uma riqueza de detalhes bizarra do dia que voltei de uma viagem a Laguna, em SC, onde conheci a casa de Anita. Não podia conter a emoção em contar pra minha profe tudo o que vi e aprendi. Ela, então, muito encantada com meu entusiasmo, me disse pra ir na frente da classe contar o que eu aprendi. Eu tinha 9 anos!


Eu sempre fui assim: entusiasta. Nada não me emociona, tudo me toca profundamente. Eu sinto muito e penso muito. Sempre fui assim. 


Depois de grande, foi inevitável não escolher o curso de relações internacionais como meu lugar de potência e energia. Era ali onde minha alma gritava por mais, eu queria muito mais! 


Nunca fui capaz de enxergar o ser humano com base nas suas etiquetas - procedência, nacionalidade, raça, profissão. Eu sempre vi pessoas com as lentes da curiosidade, da humanidade. Que grande é o mundo, que diversos somos! 


Esses pensamentos e sentimentos me acompanham até hoje - apesar de eu me sentir mais calejada e com o coração um pouco mais ressabiado. 


Eu escolhi essa carreira, essa profissão, essa identidade, seguindo o meu coração. Aliás, meu corpo inteiro me empurrou pra isso. Foi numa viagem internacional muito especial quando senti (não foi no racional) que era isso o que eu queria. 


Entender e viver o mundo. Aprender a história. Juntar peças pra montar cenários. Brincar de projetar futuros e de unir saberes. 


Continuo tendo uma fé inabalável na humanidade, na cooperação entre povos, na educação, na ciência e em todas as coisas que nos fazem ser “sapiens sapiens”.


Amo o ser humano - apesar de odiar alguns quantos exemplares!


Hoje, aqui, num bar em Bogotá, sinto vontade de tatuar na minha alma tudo o que sinto e penso: God Bless America - The continent! Que delícia ser daqui!


O sul sempre foi o meu norte, eu sou do sul e volver al sur foi algo inevitável depois de anos rodando minha mala mundo afora. E agora, entendendo melhor o sul global, posso afirmar com toda a certeza que é pra esse lado do mundo donde quero direcionar meus esforços, dedicar minha vida.


Há dez anos atrás cheguei aqui (Colômbia), com mala e cuia, sem falar espanhol, mas com um voto de confiança de alguém que acreditou na faísca da minha alma e financiou um semestre de estudos internacionais. Foi o suficiente: nunca mais fui embora.


Na verdade eu fui; mas a Colômbia continua em mim - agora são parte da minha família através da tradicional instituição do matrimônio. Mejor dicho: daqui ninguém me tira!


E mesmo que me tirem, ninguém nunca será capaz de arrancar do meu corpo e da minha alma o grande descubrimento que tive: me encontrei, me completei. Sou gaúcha, sou brasileira, sou latino-americana.


Pra encontrar todos esses pedaços de mim não foi preciso muito, apenas a coragem de partir pro território vizinho, com medo e desconfiança - típica de nós, brazucas que nós sentíamos de algum modo superiores aos nossos vizinhos. 


A ignorância também me acompanhou. Nunca vou esquecer que cheguei aqui sem saber que Bogotá tinha uma altitude de 2.600 m acima do nível do mar (o que me deixaria bem doente no início). E também a vergonha internacional de não saber quem é Soda Stereo e achar que Música Ligera era uma versão de A Sua Maneira. Socorro!!!!!! 


Quantas histórias, quantos trabalhos, casas, desafios. Todos eles me aproximando do meu eu, unindo meus desejos e minhas habilidades pra tropeçar e levantar e encontrar meu caminho de volta as minhas origens. Ter tido a oportunidade de trabalhar com cooperação internacional, impacto social, pós conflito, construção de paz junto à comunidades e por aí vai não é só um milestone no meu LinkedIn, tudo isso mudou quem eu sou. Tudo isso que eu vivi é parte de mim agora.


Esse reboliço de ideias e emoções que me motivam a escrever hoje vem de Bad Bunny e de seu papel histórico de despertar um continente através da música. Vendo o halftime show do Super Bowl (que como evento esportivo I couldn’t care less) senti minha alma inflamar de novo! Ver a história ser escrita diante dos meus olhos, numa tv num bar em Bogotá me faz gritar: Más perreo menos guerra!


Por que precisamos esconder quem somos pra posicionarmos? Por que precisamos dialogar nos termos dos que sempre mandaram e não nos termos da maioria? O que há de errado em perrear; rumbear; ser feliz y no joder a nadie, e preferir esse modo de buen vivir ao modo destrutivo e canibal dos líderes globais?? (Alô Epstein Files)


Não há nada de errado em ser.

E hoje eu sou!

Sou brasileira, sou latino-americana.

Desejo, com cada célula do meu corpo, servir e proteger aos meus, assim como exercer toda a latinidade e brasilidade de quem sabe Djvanear e Jorge Drexlar como ninguém. 


Bad Bunny mostrou pro mundo que somos todo o continente. United, deveríamos estar. 


O que eu peço pro universo agora, em 2026, em plena mudança de ordem global e ascensão do neofascismo é: se você não toma café por la mañana, e um eventual rum pela tarde, e nem sabe desfrutar de un verano en NY, denos permiso, porfa, porque nuestra hora ha llegado: seguimos aquí, y vamos fazer com o que o amor (y el perreo) grite mais alto do que odio (e a guerra).


Nossa alegria vai curar o mundo (ou isso espero).



 
 
 

Comentários


que tal trocar ideias com mais caracteres?

Obrigada por se interessar <3

© 2035 by Sofia Franco. Powered and secured by Wix

bottom of page