Não sou internacionalista só no diploma - sou internacionalista com meu corpo inteiro
- Andreia Simas
- há 1 dia
- 4 min de leitura
Nesse momento me encontro em um bar, na capital da Colômbia, de frente pros Andes, no frio das alturas, rodeada pela calorosa cultura que não tem fronteiras: a cultura latino-americana.
Eu não nasci latino-americana. Arrisco a dizer que não nasci nem muito brasileira. Nasci gaúcha, sem lugar a dúvidas. Minha festa de São João era a quermesse da prenda e do gaúcho. Anita e Giuseppe Garibaldi foram meus heróis desde criança. Até hoje me lembro com uma riqueza de detalhes bizarra do dia que voltei de uma viagem a Laguna, em SC, onde conheci a casa de Anita. Não podia conter a emoção em contar pra minha profe tudo o que vi e aprendi. Ela, então, muito encantada com meu entusiasmo, me disse pra ir na frente da classe contar o que eu aprendi. Eu tinha 9 anos!
Eu sempre fui assim: entusiasta. Nada não me emociona, tudo me toca profundamente. Eu sinto muito e penso muito. Sempre fui assim.
Depois de grande, foi inevitável não escolher o curso de relações internacionais como meu lugar de potência e energia. Era ali onde minha alma gritava por mais, eu queria muito mais!
Nunca fui capaz de enxergar o ser humano com base nas suas etiquetas - procedência, nacionalidade, raça, profissão. Eu sempre vi pessoas com as lentes da curiosidade, da humanidade. Que grande é o mundo, que diversos somos!
Esses pensamentos e sentimentos me acompanham até hoje - apesar de eu me sentir mais calejada e com o coração um pouco mais ressabiado.
Eu escolhi essa carreira, essa profissão, essa identidade, seguindo o meu coração. Aliás, meu corpo inteiro me empurrou pra isso. Foi numa viagem internacional muito especial quando senti (não foi no racional) que era isso o que eu queria.
Entender e viver o mundo. Aprender a história. Juntar peças pra montar cenários. Brincar de projetar futuros e de unir saberes.
Continuo tendo uma fé inabalável na humanidade, na cooperação entre povos, na educação, na ciência e em todas as coisas que nos fazem ser “sapiens sapiens”.
Amo o ser humano - apesar de odiar alguns quantos exemplares!
Hoje, aqui, num bar em Bogotá, sinto vontade de tatuar na minha alma tudo o que sinto e penso: God Bless America - The continent! Que delícia ser daqui!
O sul sempre foi o meu norte, eu sou do sul e volver al sur foi algo inevitável depois de anos rodando minha mala mundo afora. E agora, entendendo melhor o sul global, posso afirmar com toda a certeza que é pra esse lado do mundo donde quero direcionar meus esforços, dedicar minha vida.
Há dez anos atrás cheguei aqui (Colômbia), com mala e cuia, sem falar espanhol, mas com um voto de confiança de alguém que acreditou na faísca da minha alma e financiou um semestre de estudos internacionais. Foi o suficiente: nunca mais fui embora.
Na verdade eu fui; mas a Colômbia continua em mim - agora são parte da minha família através da tradicional instituição do matrimônio. Mejor dicho: daqui ninguém me tira!
E mesmo que me tirem, ninguém nunca será capaz de arrancar do meu corpo e da minha alma o grande descubrimento que tive: me encontrei, me completei. Sou gaúcha, sou brasileira, sou latino-americana.
Pra encontrar todos esses pedaços de mim não foi preciso muito, apenas a coragem de partir pro território vizinho, com medo e desconfiança - típica de nós, brazucas que nós sentíamos de algum modo superiores aos nossos vizinhos.
A ignorância também me acompanhou. Nunca vou esquecer que cheguei aqui sem saber que Bogotá tinha uma altitude de 2.600 m acima do nível do mar (o que me deixaria bem doente no início). E também a vergonha internacional de não saber quem é Soda Stereo e achar que Música Ligera era uma versão de A Sua Maneira. Socorro!!!!!!
Quantas histórias, quantos trabalhos, casas, desafios. Todos eles me aproximando do meu eu, unindo meus desejos e minhas habilidades pra tropeçar e levantar e encontrar meu caminho de volta as minhas origens. Ter tido a oportunidade de trabalhar com cooperação internacional, impacto social, pós conflito, construção de paz junto à comunidades e por aí vai não é só um milestone no meu LinkedIn, tudo isso mudou quem eu sou. Tudo isso que eu vivi é parte de mim agora.
Esse reboliço de ideias e emoções que me motivam a escrever hoje vem de Bad Bunny e de seu papel histórico de despertar um continente através da música. Vendo o halftime show do Super Bowl (que como evento esportivo I couldn’t care less) senti minha alma inflamar de novo! Ver a história ser escrita diante dos meus olhos, numa tv num bar em Bogotá me faz gritar: Más perreo menos guerra!
Por que precisamos esconder quem somos pra posicionarmos? Por que precisamos dialogar nos termos dos que sempre mandaram e não nos termos da maioria? O que há de errado em perrear; rumbear; ser feliz y no joder a nadie, e preferir esse modo de buen vivir ao modo destrutivo e canibal dos líderes globais?? (Alô Epstein Files)
Não há nada de errado em ser.
E hoje eu sou!
Sou brasileira, sou latino-americana.
Desejo, com cada célula do meu corpo, servir e proteger aos meus, assim como exercer toda a latinidade e brasilidade de quem sabe Djvanear e Jorge Drexlar como ninguém.
Bad Bunny mostrou pro mundo que somos todo o continente. United, deveríamos estar.
O que eu peço pro universo agora, em 2026, em plena mudança de ordem global e ascensão do neofascismo é: se você não toma café por la mañana, e um eventual rum pela tarde, e nem sabe desfrutar de un verano en NY, denos permiso, porfa, porque nuestra hora ha llegado: seguimos aquí, y vamos fazer com o que o amor (y el perreo) grite mais alto do que odio (e a guerra).
Nossa alegria vai curar o mundo (ou isso espero).










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