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De Porto ao Porto

Primeiras reflexões depois da minha mudança de Porto Alegre (Brasil) para Porto (Portugal)


Desde que soube que Porto seria nossa nova morada, venho brincando com o trocadilho “de Porto ao Porto”. Porto, portinho ou POA são as formas carinhosas e abreviadas de designar minha cidade natal: Porto Alegre.

Porto Alegre foi, durante a maior parte da minha vida, um lugar bastante triste, solitário, onde colecionei traumas e alimentei muito a ansiedade. Eu nunca entendi por que minha família decidiu ir embora de Brasília, cidade em que a nossa vida era preenchida pela convivência com pessoas amadas, família, idas ao parque da cidade, ao clube, paz, tranquilidade e, principalmente, minhas primas.


Apesar da secura do clima, nossa vida lá era farta e abundante. No sul, apesar da umidade e da variação térmica, era mais desértica.


Essa mudança de clima (eu nasci em POA, mas fui pra BSB com 1 ano de idade) me trouxe diversas doenças respiratórias. Problemas de saúde que não só me acompanharam ao longo dos anos, como também limitaram muito a minha infância e juventude. Os médicos diziam que, para que eu melhorasse mesmo, deveria me mudar de cidade. Recomendavam morar na Bahia ou, se quisesse invernos reais, na Europa, onde o clima era menos úmido.


Ir embora de Porto Alegre era meu grande objetivo de vida, desde que tenho memória. Meu sonho de juventude era morar na França (continua sendo, de certa maneira). E, aos 17 anos, eu consegui. Passei no vestibular da UFSC, e essa virou minha desculpa para ir embora estudar em Florianópolis (morada dos sonhos de muitos porto-alegrenses). Eu fiz o vestibular da UFRGS sem a menor intenção de passar — apesar de admirar muito a universidade do meu estado —, pois eu queria mesmo era partir. Bom, eu passei na UFRGS também, mas com chamada para o segundo semestre, ufa! Tinha a desculpa de ir pra Floripa pelo menos por 6 meses, “pra testar”.


Essa saída não foi como eu planejava. Minha configuração familiar era peculiar e eu fui criada para viver em uma redoma de vidro, para não ter contato com sujeira, com pessoas estranhas e com qualquer “perigo do mundo”. Apesar de eu ter nascido com essa rebeldia interna de fazer do mundo o meu lar, minha verdadeira independência de Porto Alegre aconteceu só depois de formada. Quase como no Brasil Colônia, com a carta-lei que elevou o Brasil à condição de reino, criando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1815, já se gozava de alguma liberdade, mas a independência política mesmo só veio em 1822.


5 anos de Floripa e eu consegui minha verdadeira liberdade quando agarrei uma oportunidade de ouro e fui morar em Bogotá, na Colômbia. Isso foi em 2016. Agora corta de 2016 para 2026: quase 6 anos na Colômbia, 2 anos e meio de nomadismo digital pela América Latina e o retorno ao Brasil, São Paulo e Porto Alegre. Voltei para o meu ponto de partida. Não foi NADA fácil.


Mesmo sabendo que não seria fácil, voltei porque quis, e isso é o mais engraçado. Voltei porque ali tinha onde morar, voltei porque meu marido realmente gostava da cidade, voltei para resignificar o lugar de Porto Alegre na minha vida e também para me estabilizar num lugar para começar a estudar para o concurso da diplomacia, o CACD. E esse retorno deu certo. Apesar do peso emocional desse quase ano e meio que passamos ali, sinto que recuperei partes de mim e fiz as pazes com aspectos do meu passado que estavam mal resolvidos.

Em algum momento desse retorno, eu sabia que em Porto Alegre eu gestaria mais uma mudança grande, uma mudança para longe. Eu dizia isso para poucas pessoas. Era algo que eu apenas sentia, mas não sabia para onde seria.


Minha mente queria muito que a mudança fosse logo para Brasília, porque em algum lugar do futuro eu passei no CACD e virei terceira secretária no Itamaraty. Brasília, my happy place, again! Mas no fundo meu corpo sabia que ainda não seria essa a mudança; eu iria para longe, de novo.


Eis então que Portugal surge no mapa. O país que nos formou como nação surgiu na minha vida de maneiras tão, mas tão inesperadas, que parece história de cinema. E, com esse chamado que parece que vem de cima, recebemos mais uma indicação: meu marido recebe uma proposta para ser professor no Porto. Custos de mudança cobertos, apoio para o visto dele e tudo mais. Nem nos meus melhores sonhos eu contava com uma mudança bancada (que não fosse pelo governo do Brasil hehe alô, futuro"!).


De Porto ao Porto era realmente o melhor título para essa temporada da nossa vida! A lembrança que eu guardava do Porto até então, da minha única e primeira vez que aqui estive, em 2012, era do choque de estar em um lugar que contrastava tanto com o cenário que eu levava no meu interior naquela altura. Ela, a ansiedade, que me acompanha desde os 6 anos (com os vômitos emocionais quase toda manhã antes da escola e as crises de “falta de ar” nas madrugadas por anos a fio), também estava ali à espreita, durante essa viagem de 2012.


Lembro-me de sentir-me inadequada diante de tamanha tranquilidade. Não era lerdeza, era calma. Não era passividade, era paz interior. Jamais esqueci a sensação física desse contraste: o ambiente e as pessoas ao meu redor me causaram um choque que me fez diminuir o passo, desacelerar um pouquinho, respirar a brisa que vinha do rio e do mar.

Uma rua qualquer no Porto - vista para o mar.

Aliás, bem aqui pertinho da minha nova morada, o rio Douro se encontra com o mar. Esse fenômeno natural simboliza a transição, a união dos opostos e o regresso à origem. E assim me sinto, unindo partes opostas, mirando o futuro, agora, carregando juntinho de mim o valor das minhas raízes.


É uma oportunidade de diminuir o ritmo interno, a aceleração sem propósito e a pressa constante. Caminhar sem rumo, parar para olhar a vista, combinar de encontrar os amigos para compartilhar um vinho verde (em POA seria um mate!) vendo o pôr do sol.


Andar na rua sem medo, sem pressão, sem ansiedade.


E, apesar de eu já sentir falta do meu país — que é meu grande amor —, aqui estou encontrando coisas de que eu precisava muito e que, lá, infelizmente, eu não achava. Porto tem-nos acolhido com muita generosidade, lembrando-nos de que a magia dos lugares realmente está nos encontros!



Nosso primeiro passeio cultural na Fundação Serralves

 
 
 

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